5 de janeiro de 2018

CONTINENTE DE ACOLHIMENTO


A grande maioria dos refugiados da África são acolhidos na África.

O Papa Francisco dedica o Dia Mundial da Paz – que se celebra a 1 de Janeiro – aos «Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz» e propõe que «com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se vêem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental.»

Estamos habituados a ver a África como continente origem de emigrantes e refugiados, mas alguns dos seus países são espaços de acolhimento com práticas exemplares.

Há cerca de 250 milhões de migrantes e 22,5 milhões de refugiados espalhados por todo o mundo; metade tem menos de 18 anos. São gente que procura vida melhor e enfrenta riscos tremendos para a tentar. No ano passado, mais de 3000 morreram afogados no mar Mediterrâneo. Recentemente descobriu-se que algumas centenas foram vendidos como escravos em leilões na Líbia, o porto principal de embarque para a Europa, por menos de 400 euros para trabalhos forçados e prostituição.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugidos diz que a África Subsariana acolhe mais de seis milhões de refugiados, um quarto do mundo inteiro. A maioria escapou do Sudão do Sul, República Centro-Africana, Nigéria, Burundi e Iémen.

O Uganda e a Etiópia são os dois países que mais refugiados têm na África. O Uganda recebeu mais de um milhão de sul-sudaneses que fogem da guerra civil desde Dezembro de 2013, mais 215 mil refugiados da República Democrática do Congo, 50 mil do Burundi, 44 mil da Somália, 20 mil do Ruanda, 13 mil da Eritreia e 11 mil do Sudão. A Etiópia acolheu mais de 847 mil cidadãos do Sudão do Sul, Somália, Eritreia e Sudão.

Os Camarões, Chade e Níger dão guarida a cerca de 200 mil nigerianos que fugiram da violência do Boko Haram.

O Uganda e a Etiópia são apresentados como referência pelas políticas abertas de acolhimento aos refugiados. As autoridades ugandesas distribuem pequenas parcelas de terra aos refugidos para habitação e cultivo, embora a competição pelo domínio dos recursos naturais escassos gere alguma tensão com as populações locais.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, disse na última Cimeira de Solidariedade com os Refugiados que o Uganda é «o símbolo da integridade do regime de protecção aos refugiados» e propôs as suas políticas de portas abertas como exemplo a seguir no acolhimento dos refugiados.

Há países africanos onde há deslocamentos forçosos, mas que também recebem refugiados. Por exemplo, o Sudão do Sul acolhe pessoas do Sudão (mais de 276 mil), da República Democrática do Congo (14 900), da Etiópia (4500) e da República Centro-Africana (1800).

O papa deixa um recado importante na sua mensagem: «Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.» Um alerta que serve para a África e serve para a Europa!

3 de janeiro de 2018

Viseu: DIA DE ALEGRIA




«Celebrai dias de alegria e cantai a Sua glória», diz o Livro de Tobias (13, 8).

É neste registo que a comunidade comboniana de Viseu, hoje, celebra o dom da vida do Ir. António Martins da Costa, que completa 90 anos, e do P. Inácio Babo de Macedo, que faz 68 anos.

O Ir. António Martins além de ser o comboniano português mais idoso é também o comboniano mais antigo: fez os primeiros votos a 9 de setembro de 1954 e os perpétuos seis anos depois.

O Ir. António das Barbas – como é carinhosamente chamado – nasceu em Cepões a 1 de janeiro de 1928, mas foi registado a 3.

A sua vida reparte-se por Moçambique (1962-1969 e 1970-1976), Brasil-Nordeste (1984-1993 e 1997-2009) e Portugal (1954-1962, 1969-1970, 1976-1984, 1993-1997). Regressou em 2010 e vive em Viseu, no Centro de A colhimento da Província.

Apesar de ser o decano da província todos os dias vai trabalhar para a quinta de que é encarregado. A comunidade agradece os vegetais e fruta frescos!

Durante a missa de ação de graças presidida pelo provincial, o Ir. António disse que não pensava chegar a tal idade já que os pais morreram cedo e ele teve alguns problemas de saúde no Brasil.

«Agradeço ao Senhor, porque é Ele que nos leva longe», disse num momento de partilha.

O P. Inácio é de Vila Cova da Lixa. Foi ordenado em 31 de setembro de 1977. Trabalhou na RD do Congo (1977-1983 e 1987-1993), Paris (formador de 1983 a 1987), Moçambique (1999-2008) e Portugal (1993-1999). Regressou em 2008. Vive em Viseu depois de um AVC o ter deixado limitado em julho do ano passado.

«Rezar é o que posso fazer. E não sei rezar», disse durante a eucaristia.

O P. Feliz Martins, missionário no Darfur (Sudão), escreveu uma mensagem para os dois aniversariantes:

Parabéns a você nesta data querida...
Contigo celebro a vida. É bom estares vivo!
Não te espantem os calafrios da velhice!
Porque os anos acumulados ajudam no segredo da maturidade e sapiência.
E quando se lhe ajunta o ingrediente do Amor 
Então vive-se a juventude sem cessar
Onde o provisório dá lugar ao infinito.
A mensagem está aí, jovem como a eternidade, 
Buscando um coração afinado onde pousar o convite: 
Deixa-te amar pelo Amor 
Semeia amor ao jeito do Amor 
E terás parte na Sua juventude!
Não serás jamais anfitrião da caducidade
E a velhice não será hóspede em tua casa.
Serás jovem no mundo. 
Serás Jovem em Deus Amor.
Serás Jovem com Deus eternamente Jovem.

Um abraço de parabéns aos aniversariantes!

20 de dezembro de 2017

PARA BELÉM COM O GPS

Caros amigos

Eis-nos quase lá! Em poucos dias chegaremos a Belém! A menos que percamos o nosso caminho, o que é fácil com tantas barreiras e muros para superar! Além disso, este ano a árvore de Natal na praça central de Belém foi desligada em protesto contra Trump (os herodes também não faltam hoje)! Mas não te preocupes, guia-nos a luz do coração, esperando que continue acesa, porque, de outra forma, será um grande problema!

Em qualquer caso, não vamos perder o ânimo: há sempre a Estrela, olhemos para o céu! É o nosso «navegador satélite» que o próprio Deus nos fornece para que ninguém perca o grande encontro com o Seu Filho. Ele sabe como é fácil perder a cabeça na sociedade de hoje.

De acordo com um rabino contemporâneo, nós costumamos comportar-nos como certas formigas que, tendo perdido o caminho, começam a seguir a formiga à sua frente! Mas mesmo que ela se perca, acabam às voltas num grande círculo, acreditando que estão no caminho certo. Então, amigos, se perdermos o caminho, não façamos como essas formigas, mas levantemos os olhos para a Estrela!

Se acontecer vermos escuro o céu, não pensamos que o GPS nos tenha traído. É mais provável termos ignorado o GPS, como costuma acontecer, porque – digamo-lo com franqueza – ninguém gosta de ser guiado. Então, o GPS, depois de assinalar repetidamente o erro, pára por um tempo para redesenhar uma rota alternativa. Da mesma forma, Deus é paciente connosco. Então, façamos como os Magos: examinemos as Escrituras e discirnamos os sinais da presença de Deus em nossa história, e logo a Estrela reaparecerá para iluminar as nossas trevas.

Desculpem se dou a impressão de estar a «pregar»! Pensando nisso, apenas há dois meses atrás, a doença (SLA) tentou tirar-me a palavra para sempre. Depois de mais uma crise respiratória, fui hospitalizado com urgência por quatro longas semanas e fizeram-me uma traqueotomia. Uma experiência dolorosa que não esquecerei facilmente! Agora respiro ligado a uma máquina e mal consigo fazer-me entender. Tenho pena de não poder responder às vossas chamadas, mas só posso ouvi-las.

Em qualquer caso, eu recuperei a minha «assinatura» do «ESTOU BEM!» e encontro-me sereno, um presente que Deus me concedeu graças a vocês. É verdade que estou cada vez mais limitado no meu corpo, agora praticamente paralisado, mas não me falta o sorriso e o bom humor, louvando a Deus todos os dias pelo dom da vida. Como já não posso usar os dedos para escrever ou a voz para ditar, tive que aprender a usar o ponteiro ocular, ou seja, eu estou a escrever-vos com os olhos! Maravilhas da tecnologia!

Ah, esquecia-me de dizer que, por necessidade, aprendi a imitar o corvo! Para chamar a atenção de alguém emito uma espécie de Crac! Crac!

Então, saúdo-vos calorosamente também com um CRAC, CRAC de bom agoiro para o Natal que se aproxima e para o Ano Novo de 2018. Que Deus abençoe cada um de vocês!

Aperto-vos ao meu coração
P. Manuel João Pereira Correia
Missionário Combonianoa

19 de dezembro de 2017

ESPANHA: COMBONIANOS ACOLHEM JOVENS AFRICANOS




A comunidade comboniana de Granada ofereceu abrigo a 19 jovens imigrantes subsarianos que deram à costa no Sul de Espanha.

O P. Rafael Pérez disse que a comunidade decidiu acolher desde 16 de dezembro alguns jovens que dormiam ao relento nas ruas geladas da cidade de Granada.

Os imigrantes vêm sobretudo da Guiné-Conacri e dos Camarões.

«Chegaram às praias de Almería e a polícia depois de os meter num autocarro, enviou-os para Granada onde foram abandonados à sua sorte na estação rodoviária», disse o missionário.

Um jovem sofre de malária e foi internado. Três têm queimaduras.

Ao grupo dos 36 imigrantes de Almería, juntou-se outro de 45 que desembarcaram em Motril, a sul de Granada.

Também foram transportados de autocarro para a cidade andaluz e abandonados nas ruas junto à estação rodoviária.

«Vista a situação, decidimos dar tecto a 19 imigrantes num espaço da nossa comunidade: dar-lhes de comer, que estejam resguardados do frio intenso, dar-lhes roupa, assistência de saúde», explicou o P. Pérez.

Os missionários da comunidade de Granada estão em contacto com a Cáritas e com outras ONGs para tratar de algumas questões jurídicas referentes aos imigrantes.

O P. Pérez explicou que não podem ser expulsos logo à chegada, mas a polícia pode detê-los dentro de 60 dias de permanência em território espanhol.

Os jovens foram registados à chegada pela polícia que lhes entregou um «acordo de devolução.»

Os combonianos de Espanha vão abrir uma comunidade entre os imigrantes africanos que trabalham nas estufas de Almería juntamente com as Irmãs e os Leigos Missionários Combonianos.

Em Granada, a comunidade dá assistência a uma paróquia para imigrantes.

11 de dezembro de 2017

CINFÃES MARIANO


Igreja de São João Batista de Cinfães

Estamos a terminar o ano como o começámos: com uma festa singela e sincera em honra da Mãe do Céu. A dois de fevereiro celebrámos a fevereirinha, a festa em honra da Senhora da Piedade no lugar ribeirinho de Avitoure. Hoje, neste sítio altaneiro de Joazim, celebramos a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria. Fechamos o círculo das festas populares e preparamo-nos para celebrar o Natal em pouco mais de duas semanas.

Fazemo-lo assim, porque somos herdeiros de uma fé mariana. Os nossos antepassados tinham uma grande devoção pela Nossa Senhora: dedicaram a capelinha de Lagarelhos à Senhora dos Remédios, a das Pias à Senhora do Sagrado Coração, a de Avitoure à Senhora da Piedade, esta de Joazim à Senhora da Conceição!

Antigamente, a festa maior de Cinfães era a da Senhora das Graças, no início de agosto! E a Igreja matriz, ao lado da Senhora das Graças, tem outro altar dedicado à Senhora do Rosário. Duas imagens muito belas!

Depois, do lado direito do Santo António há uma imagem pequena que pela expressão corporal parece representar a Senhora da Apresentação. Ao lado do Coração de Jesus está a Senhora da Conceição. A imagem da Senhora do Rosário de Fátima está presente na igreja e em muitas das capelas e nichos na nossa paróquia.

Aprendemos dos nossos pais a viver a devoção mariana marcada pela recitação do terço em família, e da oração ao toque das ave-marias. Antigamente, nos dias de feira fazia-se um silêncio profundo quando o sino chamava a rezar ao meio dia: os homens tiravam o chapéu e as conversas e negócios davam vez ao silêncio e à oração mariana.

Dirigimo-nos a Maria nos momentos de aperto, porque – como o Papa Francisco nos recordou três vezes durante a memorável homilia da missa centenária a 13 de maio – TEMOS MÃE!

Sim, Maria é a nossa mãe, dada por Jesus do alto da cruz. A mãe que nos remete a Jesus.

Santo Francisco Marto disse há 100 anos: «Do que mais gostei foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que a Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus.»

Maria ensina-nos a sermos filhos, a sermos cristãos, ela que é a grande mestra dos discípulos missionários de Jesus da Anunciação ao Pentecostes.

Na anunciação em Nazaré (Lucas 1, 29-38) faz perguntas, expõe dúvidas, medos, perplexidades. Depois de encontrar respostas para os seus porquês torna-se disponibilidade total e acolhe o projecto de Deus a seu respeito, a sua vocação, sem condições nem reticências. Maria disse ao anjo Gabriel: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra.»

Quando o anjo se retirou, a menina de Nazaré não ficou a curtir a solidão nem o momento: partiu apressada, pelo caminho perigoso dos montes, para ajudar Isabel, idosa, grávida de seis meses (Lucas 1, 29-36). A prima chama-a de feliz porque acreditou «porque se vai cumprir tudo o que foi dito da parte do Senhor.»

Durante a infância de Jesus, houve momentos em que Maria-mãe não entendeu o que se passava à sua volta, mas «guardava todas as coisas, ponderando-as no seu coração» (Lucas 2, 19.51), ou melhor: compunha todas as coisas no seu coração como traduz o nosso bispo, Dom António Couto. Maria é a mãe contemplativa que descobre o sentido de Deus nas pequenas coisas da vida corrente. Ou, como proclama o hino da oração da manhã da solenidade da Imaculada Conceição, «Ofereceste a Deus aquele silêncio, / onde habita a Palavra.»

No início da vida pública de Jesus, nas bodas de Caná (João 2, 1-11), apressou a manifestação do Filho com uma afirmação atenta e preocupada: «Não têm vinho!». E disse aos empregados – como diz a cada um de nós, hoje: «Fazei o que ele vos disser.» Eles encheram as seis talhas de água como Jesus mandou e este transformou-a em vinho, o vinho melhor.

Maria foi sempre uma presença discreta, solidária e constante na vida de Jesus desde a Galileia até ao Calvário onde se manteve firme aos pés da Cruz a velar o seu Jesus com um grupo de mulheres fiéis e o discípulo amado.

Seguindo o Filho, descobriu que a relação com Ele não dependia dos laços de sangue, mas da escuta e do fazer da Palavra de Deus (Lucas 8, 19-21).

Junto à cruz, viu a sua família alargar-se: Jesus deu-lhe o discípulo amado como filho – e deu-lhe cada um de nós como seus filhos amados – e chamou-a mãe do discípulo amado, que – conta o evangelista João – a levou para sua casa (João 19, 26-27).

Finalmente, Maria era parte da comunidade orante dos discípulos fechados no salão de cima, o salão da primeira eucaristia, à espera do Consolador, o Espírito de Jesus ressuscitado (Actos 1, 14). Uma mulher de comunidade, uma mulher de Igreja!

São João introduz o lava-pés com esta frase: «Jesus, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (João 13, 1).

Este amor extremado, total levou Jesus a dar-nos a sua mãe.

Para nós, a mãe é única e intransmissível. Para Jesus, Maria é mãe de todos: «Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua» (João 19, 26-27).

Hoje, ao celebrarmos a solenidade da Imaculada Conceição de Maria somos convidados acolher a mãe de Jesus como nossa mãe, a levá-la para nossa casa como o discípulo amado a levou, a aprender dela o compromisso cristão nos pequenos gestos diários, a redescobrir a Palavra de Deus como o alimento que nos faz viver, a rezar-lhe uma ave-maria todos os dias! Para ela interceder por nós, para ser luz no caminho até Jesus.

A nossa fé mariana não deve ficar-se pelas súplicas interesseiras quando andamos com o coração apertado pelas dificuldades da vida. Nossa Senhora não é «uma “Santinha” a quem se recorre para obter favores a baixo preço», recordou o Papa Francisco a 12 de maio na Cova da Iria. Não é a Senhora dos milagres baratos, low cost!

Maria fez da Palavra de Deus a melodia de fundo da sua vida, o seu fio condutor, e ensina-nos a regressar a essa Palavra de vida.

Na homilia do dia 13 de Maia o Papa Francisco disse: «Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus.»

Uma mãe carinhosa, que cuida de nós, que nos devolve ao sonho de Deus de sermos todos seus filhos muito amados, o seu enlevo, e irmãs e irmãos uns dos outros.

O Papa terminou a carta encíclica Laudato Si sobre o cuidado da casa comum com um parágrafo dedicado à «Rainha de toda a criação».

«Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano» – escreveu o Papa no n.º 241.

É este cuidado carinhoso e compadecido que queremos aprender dela! É assim que a honramos como nossa mãe.

Celebramos esta festa na catedral que Deus construiu, a criação que sofre com os fogos, a falta de chuva, a poluição, o abuso dos seus recursos. A Mãe do Céu ajuda-nos a ouvir o clamor da mãe-terra!

«Podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente», escreve o Papa no mesmo número.

Sim, precisamos da sua ajuda para podermos viver melhor e melhorar a vida dos mais pobres que são quem mais sofre com as mudanças climáticas e com a crise ecológica que vivemos.

Nossa Senhora da Imaculada Conceição intercede por nós, teus filhos muito amados, que te louvam e bendizem. Amém!

6 de dezembro de 2017

MENSAGEM DE UM HOMEM DE DEUS

Caríssimos,

Passou-se cerca de um ano, desde o Natal de 2016, quando recebi o relatório médico de ter estado atacado por um cancro no pâncreas, com metástase no fígado. Então qualifiquei-o como um dom especial, porque na minha ingenuidade e talvez na minha excessiva presunção e orgulho acreditei que me fosse fácil aceitar este caminho ao lado de Jesus e dos meus irmãos que sofrem. Em vez disso, dei-me conta de que foram os meus irmãos e as minhas irmãs mais débeis que me deram a coragem para continuar a subida até ao Cume, juntamente com Jesus e na sua companhia.

Este foi um ano em que contemplei flores jamais por mim vistas, cujo perfume me circunda e penetra no mais fundo das minhas células cancerígenas transportando alento, vida e desejo de continuar a lutar.

A primeira flor foi o encontro, depois da minha primeira sessão de quimioterapia, com uma senhora com os seus trinta anos. Estava sentada ao meu lado e no fim da sessão e de improviso começou a chorar. Antes que eu pudesse dizer uma palavra, declarou, enxugando as lágrimas: «Não choro por mim, mas pela minha menina de doze meses». E, lançando-se sobre mim, abraçou-me. Foi um abraço que jamais esquecerei.

A segunda flor foi um rapaz de dezoito anos, Gabriel, que estava a acabar o ensino secundário, um rapaz enamorado pelo alpinismo e escaladas em altas montanhas. Partilhei com ele o mesmo quarto em oncologia e partilhamos as nossas experiências de vida que nos enriqueceu mutuamente. Ele tinha uns nódulos tumorais nos pulmões que, depois de poucos meses, o levaram rapidamente a escalar a última montanha, o Paraíso. Um bom número de jovens ficou sensibilizado com o seu testemunho silencioso e a sua constante preocupação em ajudar aqueles que sofriam mais do que ele. A fragrância e a frescura da sua presença foi um dom incomparável que guardo no coração.

A terceira oferta foi um ramo de flores dos mais variados perfumes e cores que me fizeram saborear a grandeza e a beleza da vocação missionária que se manifestou na presença de uma trintena de confrades combonianos que vieram aqui a Brescia para vários exames médicos. Todos manifestavam um desejo imenso de continuar a lutar para retomar forças de modo a poderem regressar o mais depressa possível à missão. As experiências missionárias, alegres e ao mesmo tempo dolorosas, com toda uma série de insucessos e desilusões, ajudam-me a viver a minha vocação missionária na minha condição de missionário frágil.

A mais pequena flor, mas não menos esplêndida, é o meu irmãozito Padre Renato, que no dia 17 de Outubro de 2017 me entregou estas palavras (que tinha escrito em 2009), palavras quase proféticas: «Obrigado Alberto por tudo… Os sofrimentos preparam-nos para um Paraíso Eterno. Os nossos pais e o Senhor esperam por nós. Acompanho-te com afeto. Tudo posso na minha fraqueza, com a Sua ajuda.»

Os médicos disseram-me que o encontro final com o PAI deverá ocorrer antes do Natal de 2018. Tenho uma grande vontade em dar este salto nos SEUS braços.

AGORA ELE sustém o meu andamento um pouco instável, procurando colocar as minhas mãos nas dos meu irmão e da minha irmã que sofre mais do que eu. Por vezes, e é a maioria das vezes, não pode fazer mais do que abraçar-me e enxugar-me as inevitáveis lágrimas. Caloroso abraço. Bom Natal
Alberto Modonesi

5 de dezembro de 2017

NATAL JUBANO


Juba celebra um Natal vibrante e colorido.

Passei o meu primeiro Natal em Juba, no Sul do Sudão, em 2006. Os dias que o antecederam foram de grande azáfama e preocupação: queríamos ter tudo a postos para que a primeira emissão experimental da Rádio Bakhita acontecesse na noite de Natal.

Dois técnicos italianos davam os últimos toques nos estúdios, nas antenas e no transmissor, enquanto a equipa missionária – duas irmãs e um irmão combonianos, e eu – aprendíamos os segredos da rádio.

Veio a meia-noite e desligámos a emissão automática dos estúdios para ir para o ar a transmissão da missa do galo da Catedral de Santa Teresa, presidida por Dom Paolino Lukudu Loro, arcebispo comboniano de Juba e primaz do Sudão do Sul.

A transmissão inaugural foi um êxito: a celebração do Natal da catedral entrou nos lares de Juba através da Bakhita Radio 91 FM, a voz da Igreja – como proclamava o indicativo da estação.

Depois da transmissão tivemos de arrumar cabos, microfones e misturador. Quando chegámos, na rua tínhamos uma surpresa à nossa espera: uma multidão imensa celebrava o nascimento de Jesus ao jeito de um grande Carnaval.

Jovens, mulheres e homens, tudo vestido a preceito, corriam pelas ruas sem iluminação pública numa alegria efusiva. Rapazes queriam impressionar a fazer habilidades com as suas motas. Automóveis manifestaram-se com uma explosão de sons numa coreografia desordenada e imparável. As ruas junto às igrejas fervilhavam de gente e de actividade.

A razão para tanta algazarra natalícia era a liberdade: durante a guerra civil, que terminou em Janeiro de 2005, a população de Juba viveu sob o recolher obrigatório das seis da noite às seis da manhã. Quem fosse apanhado nas ruas durante esse período era preso ou na pior das hipóteses apanhava um tiro de um soldado ou de um polícia. A segurança nesses tempos era férrea.

Contudo, na noite de Natal, o Governo muçulmano (fundamentalista) de Cartum levantava o recolher obrigatório para os cristãos poderem celebrar o nascimento de Jesus com a missa do galo à meia-noite.

Depois da celebração, bem cantada, dançada e vivida, os templos despediam as grandes assembleias para a rua para celebrar a alegria do nascimento do Menino, a única noite em que podiam quebrar o recolher obrigatório sem correrem risco de vida.

Contudo, os últimos quatro Natais foram muito diferentes: os libertadores tornaram-se opressores e a 15 de Dezembro de 2013 o país voltou a descer aos infernos da guerra civil com contornos étnicos da luta fratricida pelo poder. Forças do Governo e da oposição usam a ajuda alimentar, a violência sexual e a limpeza étnica como armas para punir aqueles que percebem como inimigos à hegemonia política que dá acesso ao controlo das riquezas nacionais – sobretudo o petróleo – e à percentagem «cobrada» ao investimento estrangeiro.

Não sei se este ano os cristãos voltam a trazer a alegria do Natal para as ruas de Juba e para os caminhos do país. Mas Jesus, o Deus-connosco, continua a oferecer a sua paz a todos os que queiram fazer o caminho da reconciliação e da conversão.

«Glória a Deus nas alturas e paz na terra, sobretudo no Sudão do Sul martirizado!» – vão cantar os anjos na noite santa.