11 de dezembro de 2017

CINFÃES MARIANO


Igreja de São João Batista de Cinfães

Estamos a terminar o ano como o começámos: com uma festa singela e sincera em honra da Mãe do Céu. A dois de fevereiro celebrámos a fevereirinha, a festa em honra da Senhora da Piedade no lugar ribeirinho de Avitoure. Hoje, neste sítio altaneiro de Joazim, celebramos a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria. Fechamos o círculo das festas populares e preparamo-nos para celebrar o Natal em pouco mais de duas semanas.

Fazemo-lo assim, porque somos herdeiros de uma fé mariana. Os nossos antepassados tinham uma grande devoção pela Nossa Senhora: dedicaram a capelinha de Lagarelhos à Senhora dos Remédios, a das Pias à Senhora do Sagrado Coração, a de Avitoure à Senhora da Piedade, esta de Joazim à Senhora da Conceição!

Antigamente, a festa maior de Cinfães era a da Senhora das Graças, no início de agosto! E a Igreja matriz, ao lado da Senhora das Graças, tem outro altar dedicado à Senhora do Rosário. Duas imagens muito belas!

Depois, do lado direito do Santo António há uma imagem pequena que pela expressão corporal parece representar a Senhora da Apresentação. Ao lado do Coração de Jesus está a Senhora da Conceição. A imagem da Senhora do Rosário de Fátima está presente na igreja e em muitas das capelas e nichos na nossa paróquia.

Aprendemos dos nossos pais a viver a devoção mariana marcada pela recitação do terço em família, e da oração ao toque das ave-marias. Antigamente, nos dias de feira fazia-se um silêncio profundo quando o sino chamava a rezar ao meio dia: os homens tiravam o chapéu e as conversas e negócios davam vez ao silêncio e à oração mariana.

Dirigimo-nos a Maria nos momentos de aperto, porque – como o Papa Francisco nos recordou três vezes durante a memorável homilia da missa centenária a 13 de maio – TEMOS MÃE!

Sim, Maria é a nossa mãe, dada por Jesus do alto da cruz. A mãe que nos remete a Jesus.

Santo Francisco Marto disse há 100 anos: «Do que mais gostei foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que a Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus.»

Maria ensina-nos a sermos filhos, a sermos cristãos, ela que é a grande mestra dos discípulos missionários de Jesus da Anunciação ao Pentecostes.

Na anunciação em Nazaré (Lucas 1, 29-38) faz perguntas, expõe dúvidas, medos, perplexidades. Depois de encontrar respostas para os seus porquês torna-se disponibilidade total e acolhe o projecto de Deus a seu respeito, a sua vocação, sem condições nem reticências. Maria disse ao anjo Gabriel: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra.»

Quando o anjo se retirou, a menina de Nazaré não ficou a curtir a solidão nem o momento: partiu apressada, pelo caminho perigoso dos montes, para ajudar Isabel, idosa, grávida de seis meses (Lucas 1, 29-36). A prima chama-a de feliz porque acreditou «porque se vai cumprir tudo o que foi dito da parte do Senhor.»

Durante a infância de Jesus, houve momentos em que Maria-mãe não entendeu o que se passava à sua volta, mas «guardava todas as coisas, ponderando-as no seu coração» (Lucas 2, 19.51), ou melhor: compunha todas as coisas no seu coração como traduz o nosso bispo, Dom António Couto. Maria é a mãe contemplativa que descobre o sentido de Deus nas pequenas coisas da vida corrente. Ou, como proclama o hino da oração da manhã da solenidade da Imaculada Conceição, «Ofereceste a Deus aquele silêncio, / onde habita a Palavra.»

No início da vida pública de Jesus, nas bodas de Caná (João 2, 1-11), apressou a manifestação do Filho com uma afirmação atenta e preocupada: «Não têm vinho!». E disse aos empregados – como diz a cada um de nós, hoje: «Fazei o que ele vos disser.» Eles encheram as seis talhas de água como Jesus mandou e este transformou-a em vinho, o vinho melhor.

Maria foi sempre uma presença discreta, solidária e constante na vida de Jesus desde a Galileia até ao Calvário onde se manteve firme aos pés da Cruz a velar o seu Jesus com um grupo de mulheres fiéis e o discípulo amado.

Seguindo o Filho, descobriu que a relação com Ele não dependia dos laços de sangue, mas da escuta e do fazer da Palavra de Deus (Lucas 8, 19-21).

Junto à cruz, viu a sua família alargar-se: Jesus deu-lhe o discípulo amado como filho – e deu-lhe cada um de nós como seus filhos amados – e chamou-a mãe do discípulo amado, que – conta o evangelista João – a levou para sua casa (João 19, 26-27).

Finalmente, Maria era parte da comunidade orante dos discípulos fechados no salão de cima, o salão da primeira eucaristia, à espera do Consolador, o Espírito de Jesus ressuscitado (Actos 1, 14). Uma mulher de comunidade, uma mulher de Igreja!

São João introduz o lava-pés com esta frase: «Jesus, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (João 13, 1).

Este amor extremado, total levou Jesus a dar-nos a sua mãe.

Para nós, a mãe é única e intransmissível. Para Jesus, Maria é mãe de todos: «Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua» (João 19, 26-27).

Hoje, ao celebrarmos a solenidade da Imaculada Conceição de Maria somos convidados acolher a mãe de Jesus como nossa mãe, a levá-la para nossa casa como o discípulo amado a levou, a aprender dela o compromisso cristão nos pequenos gestos diários, a redescobrir a Palavra de Deus como o alimento que nos faz viver, a rezar-lhe uma ave-maria todos os dias! Para ela interceder por nós, para ser luz no caminho até Jesus.

A nossa fé mariana não deve ficar-se pelas súplicas interesseiras quando andamos com o coração apertado pelas dificuldades da vida. Nossa Senhora não é «uma “Santinha” a quem se recorre para obter favores a baixo preço», recordou o Papa Francisco a 12 de maio na Cova da Iria. Não é a Senhora dos milagres baratos, low cost!

Maria fez da Palavra de Deus a melodia de fundo da sua vida, o seu fio condutor, e ensina-nos a regressar a essa Palavra de vida.

Na homilia do dia 13 de Maia o Papa Francisco disse: «Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus.»

Uma mãe carinhosa, que cuida de nós, que nos devolve ao sonho de Deus de sermos todos seus filhos muito amados, o seu enlevo, e irmãs e irmãos uns dos outros.

O Papa terminou a carta encíclica Laudato Si sobre o cuidado da casa comum com um parágrafo dedicado à «Rainha de toda a criação».

«Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano» – escreveu o Papa no n.º 241.

É este cuidado carinhoso e compadecido que queremos aprender dela! É assim que a honramos como nossa mãe.

Celebramos esta festa na catedral que Deus construiu, a criação que sofre com os fogos, a falta de chuva, a poluição, o abuso dos seus recursos. A Mãe do Céu ajuda-nos a ouvir o clamor da mãe-terra!

«Podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente», escreve o Papa no mesmo número.

Sim, precisamos da sua ajuda para podermos viver melhor e melhorar a vida dos mais pobres que são quem mais sofre com as mudanças climáticas e com a crise ecológica que vivemos.

Nossa Senhora da Imaculada Conceição intercede por nós, teus filhos muito amados, que te louvam e bendizem. Amém!

6 de dezembro de 2017

MENSAGEM DE UM HOMEM DE DEUS

Caríssimos,

Passou-se cerca de um ano, desde o Natal de 2016, quando recebi o relatório médico de ter estado atacado por um cancro no pâncreas, com metástase no fígado. Então qualifiquei-o como um dom especial, porque na minha ingenuidade e talvez na minha excessiva presunção e orgulho acreditei que me fosse fácil aceitar este caminho ao lado de Jesus e dos meus irmãos que sofrem. Em vez disso, dei-me conta de que foram os meus irmãos e as minhas irmãs mais débeis que me deram a coragem para continuar a subida até ao Cume, juntamente com Jesus e na sua companhia.

Este foi um ano em que contemplei flores jamais por mim vistas, cujo perfume me circunda e penetra no mais fundo das minhas células cancerígenas transportando alento, vida e desejo de continuar a lutar.

A primeira flor foi o encontro, depois da minha primeira sessão de quimioterapia, com uma senhora com os seus trinta anos. Estava sentada ao meu lado e no fim da sessão e de improviso começou a chorar. Antes que eu pudesse dizer uma palavra, declarou, enxugando as lágrimas: «Não choro por mim, mas pela minha menina de doze meses». E, lançando-se sobre mim, abraçou-me. Foi um abraço que jamais esquecerei.

A segunda flor foi um rapaz de dezoito anos, Gabriel, que estava a acabar o ensino secundário, um rapaz enamorado pelo alpinismo e escaladas em altas montanhas. Partilhei com ele o mesmo quarto em oncologia e partilhamos as nossas experiências de vida que nos enriqueceu mutuamente. Ele tinha uns nódulos tumorais nos pulmões que, depois de poucos meses, o levaram rapidamente a escalar a última montanha, o Paraíso. Um bom número de jovens ficou sensibilizado com o seu testemunho silencioso e a sua constante preocupação em ajudar aqueles que sofriam mais do que ele. A fragrância e a frescura da sua presença foi um dom incomparável que guardo no coração.

A terceira oferta foi um ramo de flores dos mais variados perfumes e cores que me fizeram saborear a grandeza e a beleza da vocação missionária que se manifestou na presença de uma trintena de confrades combonianos que vieram aqui a Brescia para vários exames médicos. Todos manifestavam um desejo imenso de continuar a lutar para retomar forças de modo a poderem regressar o mais depressa possível à missão. As experiências missionárias, alegres e ao mesmo tempo dolorosas, com toda uma série de insucessos e desilusões, ajudam-me a viver a minha vocação missionária na minha condição de missionário frágil.

A mais pequena flor, mas não menos esplêndida, é o meu irmãozito Padre Renato, que no dia 17 de Outubro de 2017 me entregou estas palavras (que tinha escrito em 2009), palavras quase proféticas: «Obrigado Alberto por tudo… Os sofrimentos preparam-nos para um Paraíso Eterno. Os nossos pais e o Senhor esperam por nós. Acompanho-te com afeto. Tudo posso na minha fraqueza, com a Sua ajuda.»

Os médicos disseram-me que o encontro final com o PAI deverá ocorrer antes do Natal de 2018. Tenho uma grande vontade em dar este salto nos SEUS braços.

AGORA ELE sustém o meu andamento um pouco instável, procurando colocar as minhas mãos nas dos meu irmão e da minha irmã que sofre mais do que eu. Por vezes, e é a maioria das vezes, não pode fazer mais do que abraçar-me e enxugar-me as inevitáveis lágrimas. Caloroso abraço. Bom Natal
Alberto Modonesi

5 de dezembro de 2017

NATAL JUBANO


Juba celebra um Natal vibrante e colorido.

Passei o meu primeiro Natal em Juba, no Sul do Sudão, em 2006. Os dias que o antecederam foram de grande azáfama e preocupação: queríamos ter tudo a postos para que a primeira emissão experimental da Rádio Bakhita acontecesse na noite de Natal.

Dois técnicos italianos davam os últimos toques nos estúdios, nas antenas e no transmissor, enquanto a equipa missionária – duas irmãs e um irmão combonianos, e eu – aprendíamos os segredos da rádio.

Veio a meia-noite e desligámos a emissão automática dos estúdios para ir para o ar a transmissão da missa do galo da Catedral de Santa Teresa, presidida por Dom Paolino Lukudu Loro, arcebispo comboniano de Juba e primaz do Sudão do Sul.

A transmissão inaugural foi um êxito: a celebração do Natal da catedral entrou nos lares de Juba através da Bakhita Radio 91 FM, a voz da Igreja – como proclamava o indicativo da estação.

Depois da transmissão tivemos de arrumar cabos, microfones e misturador. Quando chegámos, na rua tínhamos uma surpresa à nossa espera: uma multidão imensa celebrava o nascimento de Jesus ao jeito de um grande Carnaval.

Jovens, mulheres e homens, tudo vestido a preceito, corriam pelas ruas sem iluminação pública numa alegria efusiva. Rapazes queriam impressionar a fazer habilidades com as suas motas. Automóveis manifestaram-se com uma explosão de sons numa coreografia desordenada e imparável. As ruas junto às igrejas fervilhavam de gente e de actividade.

A razão para tanta algazarra natalícia era a liberdade: durante a guerra civil, que terminou em Janeiro de 2005, a população de Juba viveu sob o recolher obrigatório das seis da noite às seis da manhã. Quem fosse apanhado nas ruas durante esse período era preso ou na pior das hipóteses apanhava um tiro de um soldado ou de um polícia. A segurança nesses tempos era férrea.

Contudo, na noite de Natal, o Governo muçulmano (fundamentalista) de Cartum levantava o recolher obrigatório para os cristãos poderem celebrar o nascimento de Jesus com a missa do galo à meia-noite.

Depois da celebração, bem cantada, dançada e vivida, os templos despediam as grandes assembleias para a rua para celebrar a alegria do nascimento do Menino, a única noite em que podiam quebrar o recolher obrigatório sem correrem risco de vida.

Contudo, os últimos quatro Natais foram muito diferentes: os libertadores tornaram-se opressores e a 15 de Dezembro de 2013 o país voltou a descer aos infernos da guerra civil com contornos étnicos da luta fratricida pelo poder. Forças do Governo e da oposição usam a ajuda alimentar, a violência sexual e a limpeza étnica como armas para punir aqueles que percebem como inimigos à hegemonia política que dá acesso ao controlo das riquezas nacionais – sobretudo o petróleo – e à percentagem «cobrada» ao investimento estrangeiro.

Não sei se este ano os cristãos voltam a trazer a alegria do Natal para as ruas de Juba e para os caminhos do país. Mas Jesus, o Deus-connosco, continua a oferecer a sua paz a todos os que queiram fazer o caminho da reconciliação e da conversão.

«Glória a Deus nas alturas e paz na terra, sobretudo no Sudão do Sul martirizado!» – vão cantar os anjos na noite santa.

23 de novembro de 2017

CRER NOS JOVENS


Vivemos tempos de seca vocacional extrema. A não renovação de gerações na vida consagrada preocupa-nos. Há uma escapatória, uma rota de fuga para a frente: condenar esta geração que não quer saber de Deus; que não acolhe propostas vocacionais empenhativas; que não… não… não…

Neste cenário vocacional desafiante, desanimador e desolador somos chamados «a ver o ramo da amendoeira» (Jeremias 1, 11). E a pedir ao Senhor da vinha que envie operários para a sua vinha. Essa é a primeira tarefa do discípulo missionário (Lucas 10, 2).

Há muitas amendoeiras a florir no inverno vocacional que atravessamos, há muitos operários à espera de um convite para irem trabalhar para a vinha do Senhor.

Em fevereiro de 2017 havia 745 candidatos ao presbitério diocesano nos pré-seminários, seminários menores, propedêutico, seminários maiores e no ano pastoral. Os dados são da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios.

O inquérito de opinião aos jovens que a CIRP comissionou por ocasião do Ano da Vida Consagrada revelou uma conclusão interessante: os jovens de hoje têm lugar para Deus nas suas mentes e corações e estão disponíveis para acolher histórias de vida. Talvez não haja é tanta paciência para discursos «secantes»…

Os jovens de hoje são tão generosos como nós, mas expressam a sua dedicação de uma maneira diferente, têm a sua maneira de viver a generosidade.

Segundo a FEC, 389 jovens e adultos estão empenhados em projetos de voluntariado missionário de curto, médio e longo prazo no estrangeiro e 1014 desenvolvem atividades de voluntariado/missão em Portugal.

Muitos jovens empenharam-se na ajuda às vítimas dos incêndios desde o lançamento de iniciativas através das redes sociais até à recolha e distribuição de ajudas.

Por outro lado, todos os anos um batalhão de gente nova põe-se ao dispor do Banco Alimentar para recolher donativos nas superfícies comerciais.

Mais de 2000 universitários passaram o carnaval na «Missão país», um projeto católico de universitários para levar Jesus às universidades e evangelizar Portugal através do testemunho da fé, do serviço e da caridade. Em 14 anos, esses universitários já desenvolveram 154 missões de evangelização em 75 localidades diferentes em três anos seguidos.

O papa Francisco escreveu no n.º 8 da sua mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2017: «Os jovens são a esperança da missão. A pessoa de Jesus e a Boa Nova proclamada por Ele continuam a fascinar muitos jovens. Estes buscam percursos onde possam concretizar a coragem e os ímpetos do coração ao serviço da humanidade. “São muitos os jovens que se solidarizam contra os males do mundo, aderindo a várias formas de militância e voluntariado. (...) Como é bom que os jovens sejam ‘caminheiros da fé’, felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra!” (Ibid., 106)»

E continua: «A próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que terá lugar em 2018 sobre o tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», revela-se uma ocasião providencial para envolver os jovens na responsabilidade missionária comum, que precisa da sua rica imaginação e criatividade.»

O Papa acredita nos jovens! Na carta que lhes escreveu ao anunciar o Sínodo de 2018 sublinhou: «Um mundo melhor constrói-se também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e à vossa generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre. »

E tem uma palavra para nós: «Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores.»

Gostava de sublinhar dois pontos sobre esta atitude de escuta: para comunicar com os jovens necessitamos de um discurso que eles entendam. Muitas vezes falamos uma linguagem demasiado hermética, para iniciados, que pede tradução simultânea. E temos que saber escutar e responder às suas questões existenciais.

Para comunicar temos que dizer presente no areópago da aldeia global: o espaço digital. Há alguma dificuldade em entender a utilidade da presença dos consagradas e dos consagrados nas redes sociais. Mas é lá que os jovens moram, falam, escutam, namoram, compram, vendem… É lá que eles vivem quase 24 horas por dia!

As redes sociais – o Facebook, o Twitter, o Instagram, o YouTube, os blogues, as comunidades digitais – são os espaços onde temos que testemunhar a alegria de sermos seguidores de Jesus em comunidades castas, pobres e obedientes de discípulos missionários que vivem a alegria do Evangelho.

10 de novembro de 2017

TERRAS DA DISCÓRDIA


O negócio da terra afecta comunidades africanas que se vêem privadas de recursos vitais.
Os bispos de Moçambique publicaram em Abril uma carta pastoral muito robusta e corajosa intitulada À tua descendência darei esta terra. Nela denunciam que «a terra em Moçambique está em agonia profunda!». E mais enfaticamente a dado passo: «Chega até nós, cada dia, a preocupação e o desencanto de tantas comunidades cristãs e não cristãs que enfrentam conflitos de terra pondo em perigo a própria segurança alimentar e a estabilidade familiar e social.»

É uma tensão transversal a muitas comunidades africanas. Governos estrangeiros e investidores arrendam ou compram vastas extensões com a cumplicidade das autoridades que lucram com os enormes negócios da indústria agro-alimentar. Desde 2006 mais de 30 milhões de hectares – mais de três vezes a área de Portugal – de solo africano foram arrendados ou vendidos em Madagáscar, Moçambique, Etiópia, República Democrática do Congo, Sudão, Camarões, Gana, Mali, Somália, Tanzânia e Zâmbia. Entre os alugadores destacam-se a China, os países árabes, a Índia e a Coreia do Sul.

Governos estrangeiros e investidores privados usam a África para produzir cereais, frutas, legumes e gado para exportação e culturas para fazer biocombustíveis à custa das comunidades locais que ou são deslocadas violentamente pelas autoridades (como aconteceu no Sul da Etiópia) ou trocam os seus terrenos por promessas vagas.

Em Moçambique, o ProSavana, um megaprojecto para 11 milhões de hectares nas províncias de Nampula, Niassa e Zambézia com dinheiros brasileiros e da cooperação japonesa, está a provocar uma grande oposição local: os residentes temem perder as suas terras. Também se fala de um projecto de plantio extenso de eucaliptos por uma indústria de celulose estrangeira.

Esta nova onda colonizadora da África afecta os pequenos agricultores e as comunidades locais: porque vêem os meios de subsistência a minguar e porque sofrem as consequências de um investimento que não os beneficia, incluindo a escassez de solos e de água e a sua poluição.

Este fenómeno é possível devido à corrupção endémica e ao modo como a gestão dos solos é feita no continente. Desde os tempos coloniais que a terra é considerada propriedade do Estado. E assim se mantém. A Constituição da Eritreia, por exemplo, estipula no n.º 2 do artigo 23 que «toda a terra e todos os recursos naturais sob e sobre a superfície do território da Eritreia pertence ao Estado». Uma percepção que contrasta com o direito tradicional, que considera suas as terras ancestrais. Além da ligação à terra, há a ligação aos antepassados nela sepultados.

Quando construímos a missão de Haro Wato, fizemos um contrato com o Estado etíope que cedeu o espaço por 99 anos: os edifícios são da diocese, mas o terreno não. O que está abaixo dos oito metros da superfície pertence integralmente ao Estado. Os mineiros artesanais de ouro fazem poços até oito metros de profundidade e depois abrem galerias para o Governo não expropriar o ouro que garimpam.

Os bispos moçambicanos terminam a carta pastoral advogando «uma efectiva Reforma Agrária para corrigir os impactos negativos que as políticas económicas agrárias actuais estão a causar nas comunidades rurais em todo o país». E, acrescento eu, para o continente também!

5 de novembro de 2017

ACORNHOEK ACOLHE VOTOS PERPÉTUOS, DIACONADO DO RICARDO GOMES


A paróquia sul-africana de Maria Assunta de Acornhoek, na diocese de Witbank, viveu um fim-de-semana missionário especial ao acolher a consagração perpétua no Insituto comboniano e a ordenação diaconal do escolástico Ricardo Alberto Leite Gomes.

As celebrações mobilizaram muita gente: os pais, a irmã e os párocos do Ricardo, que viajaram da Trofa juntamente com o provincial de Portugal; a província da África do Sul; muitos amigos; e as comunidades comboniana e cristã de Akornhoek que prepararam os espaços e as celebrações com esmero.

O Ricardo emitiu os votos perpétuos na encaristia da tarde de sábado, 4 de novembro de 2017, presidida pelo P. Jude Burgers, superior provincial da África do Sul.

A Igreja paroquial estava cheia de pessoas que quiseram testemunhar o sim para sempre do Ricardo a Deus no Instituto Missionário Comboniano.

O P. Jude explicou durante a homilia que a essência da consagração final é dar a própria vida como uma ato de fé: «Sim, este é o meu corpo, eu dá-lo-ei por ti, Senhor, e pela missão», disse.

O Ricardo, através da fórmula da consagração perpétua, perante o provincial de Portugal, P. José Vieira, em representação do padre geral, agradeceu a Deus por todas as bênçãos recebidas e por todas as pessoas que fazem parte da sua vida.

No final da eucaristia os participantes partilharam um jantar animado sob a magia da lua cheia africana.

A ordenação diaconal decorreu no domingo, 5 de novembro de 2017. O salão Father Angelo Matordes estava completamnete cheio em ambiente de grande alegria, cor e festa. A assembleia cantou, dançou e rezou com grande entusiasmo e devoção. Vuvuzelas, tambores e apitos marcavam o ritmo da celebração.

O bispo de Witbank, D. Giuseppe Sandri, presidiu à eucaristia em três línguas e ordenou o Ricardo como diácono.

O bispo comboniano, que foi pároco de Acornhoek, explicou que «tornar-se diácono significa ser um servo de Deus e um servo do povo de Deus.»

«Tu és abençoado porque Deus te chamou de uma maneira misteriosa e tu respondeste», proclamou na homilia.

No final da eucaristia a assembeia ofereceu presentes e deu os parabéns ao novo diácono.

Na hora dos discursos, o provincial de Portugal recordou o fim-de-semana prolongado que passou na missão em 1990 e agradeceu à comunidade cristã e comboniana o acolhimento e o cuidado dispensados ao Ricardo durante os meses de serviço missionário que viveu em Acornhoek.

O P. Jude, provincial da África do Sul, disse que a celebração da ordenação foi «um momento de Deus.»

O neo-ordenado teve uma palavra de agradecimento a Deus pelo dom que recebeu apesar de não se sentir digno, e um obrigado a todos os que fazem parte da sua história. Terminou com um agradecimento à comunidade através de uma mensagem lida em língua tsonga.

A cerimónia de mais de três horas concluiu com algumas danças por um grupo de bailarinos tsongas e um almoço de confraternização para todos os participantes.

O Diácono Ricardo foi destinado a Portugal a partir de 1 de janeiro de 2018 e vai ser ordenado padre missionário na paróquia natal, São Martinho de Bougado-Trofa, dentro de meio ano.

17 de outubro de 2017

TODOS À MESA POR UMA MESA PARA TODOS



DECLARAÇÃO CONJUNTA DE DIFERENTES CONFISSÕES RELIGIOSAS

NO DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO

Lisboa, 16 de Outubro de 2017

Por ocasião do Dia Mundial da Alimentação 2017, que tem este ano como tema "Mudar o futuro das Migrações - Investir na Segurança Alimentar e Desenvolvimento Rural", diferentes confissões religiosas reuniram-se à mesma Mesa, em solidariedade com toda a Humanidade e em especial com todos os irmãos que sofrem situações de pobreza e fome.

Sabemos que hoje em dia o planeta produz alimentos suficientes para todos e, no entanto, em 2016, o número de pessoas subnutridas cronicamente no mundo aumentou para 815 milhões, acima de 777 milhões em 2015. Múltiplas formas de desnutrição coexistem, com países que experimentam simultaneamente altas taxas de desnutrição infantil e obesidade adulta. O excesso de peso e a obesidade infantil está a aumentar na maioria das regiões do mundo e em todas as regiões no caso dos adultos.

O agravamento generalizado de conflitos armados, associado ao impacto de desastres naturais e alterações climáticas têm vindo a exacerbar uma realidade que revela causas estruturais de injustiça e exclusão social e territorial. A competição por recursos naturais limitados (especialmente água e terra) sem respeito pelas comunidades locais e o Bem Comum; a mercantilização de bens alimentares, sujeitos a especulação, torna-se neste contexto ainda mais inaceitável, bem como a falha de sistemas de regulação e de proteção social nas zonas de conflito e zonas mais afetadas por desastres naturais.

Este ano o tema do Dia Mundial da Alimentação realça esta realidade: "Mudar o futuro das Migrações - Investir na Segurança Alimentar e no Desenvolvimento Rural". Em 2015, mais de 65 milhões de pessoas viram-se obrigadas a abandonar a sua Terra devido a conflitos. Mais de 19 milhões de pessoas tiveram de deslocar-se depois de sobreviver a desastres naturais. Muitos procedem de zonas rurais: agricultores, pastores e pescadores. Com contornos diferentes, esta é uma realidade que tem marcado também o nosso país, com o terrível flagelo dos incêndios florestais que revelam falhas estruturais graves na gestão justa dos territórios rurais de minifúndio do interior.

A luta contra a fome e a má nutrição vai muito além da produção de alimentos. A fome e a pobreza extremas podem eliminar-se através da implementação de estratégias de segurança alimentar e nutricional baseadas no Direito Humano a uma Alimentação Adequada, assentes no desenvolvimento rural inclusivo e em sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.

Todos nós estamos conscientes de que não é suficiente a intenção de assegurar a todos o pão de cada dia, mas é necessário reconhecer que todos têm direito a ele e portanto devem poder desfrutar do mesmo. O que fazer? Como fazer mais e melhor? A Alimentação está no coração da Agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis, uma agenda universal que a todos responsabiliza. Com este encontro queremos começar por nos questionar a nós mesmos, e por pôr em prática os ingredientes que sabemos serem o sal de qualquer negociação e transformação social: os valores da paz, da solidariedade, do diálogo e da partilha no Cuidado da nossa Casa Comum.

Dispomo-nos a colaborar com a FAO na implementação de estratégias locais de nutrição e sistemas alimentares sustentáveis, bem como no esforço de implementação da estratégia de segurança alimentar e nutricional da CPLP.

Dispomo-nos a colaborar com a Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar na implementação de estratégias de sensibilização e educação que entendam pertinentes, potenciando o trabalho que já realizamos quer de mudança de atitudes e comportamentos, quer de canalização de potenciais desperdícios para apoio alimentar.

Dispomo-nos a colaborar com a Secretaria de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural na reflexão e implementação de políticas públicas e estratégias locais que reforcem modelos agroecológicos e a agricultura de pequena escala, favorecendo a estruturação dos pequenos proprietários agroflorestais e sistemas alimentares locais que aproximam consumidores (individuais e coletivos) dos produtores, como fator chave de dinamização e revitalização integrada do território, bem como de educação das novas gerações.

Pedimos que, connosco, assumam hoje o compromisso de dar vida às políticas e estratégias que coordenam, de forma inclusiva e participativa, assente nesta que pode ser uma inspiração para todos: Todos à Mesa por uma Mesa para Todos.

Que as Mesas a que cada um se senta cada dia, seja em casa com a família, seja na Celebração Religiosa, seja na negociação de políticas, tenha como centro as Pessoas e o bem Comum.